terça-feira, 21 de outubro de 2008

Show de Marionetes e Sombras

Entretenimento é algo tão perigoso nos dias de hoje. Exclusivista (qualquer bandinha mequetrefe justifica que donos de bares e casas de shows cobrem mais de R$60 de seus patronos pelo prazer), escapista e manipulador, o Grande Circo moderno nos apresenta uma parca variedade de soluções noticiosas para induzir nosso estupor coletivo do dia-a-dia.

Caso ninguém saiba do que raios eu estou falando, fica a dica: leia o seu jornal com atenção. Quem já estava fazendo isso semana passada viu as portas se abrirem para leões, cristãos e gladiadores e, enquanto ninguém olhava, os césares comiam e bebiam tranquilamente. Mas chega de metáforas do Lazio.

Primeiro eu quero que fique claro que eu não estou ranqueando os eventos posteriores a esta nem tentando dizer a ninguém o que deve ser de seu interesse particular. Quero meramente articular que pouca atenção foi dada a ditos eventos quando estes eram tão importantes quantos outros que a mídia performática escolheu propelir ao primeiro plano da consciência nacional.

Pergunto: A crise internacional financeira é realmente mais importante que as decisões do Senado quanto ao nepotismo às subseqüentes “armações” e negociatas? O trágico seqüestro e morte da garota Eloá é mais relevante que o confronto entre policiais civis e militares e as estremecidas relações entre estes órgãos fundamentais do poder executivo? Todas estas coisas realmente empalidecem frente ao resultado do mais recente clássico Choque Rei?

Aqui eu vou contar uma anedota de contraponto a influencia maléfica do entretenimento na consciência cívica via mídia:

- No dia 5 de Abril de 1968, a cidade americana de Boston amanheceu coberta pelo mais sinistro luto do século XX. Martin Luther King, Jr. estava morto, vítima de assassinato. O maior símbolo da resistência pacífica e do próprio pacifismo no movimento pelas liberdades civis nos Estados Unidos estava ausente e ameaçado de uma destruição simbólica por seus próprios asseclas. Detroit já ardia em chamas e até o dia seguinte, mais de 100 outras seriam vítimas de uma onda incontrolável de violência e destruição. O reverendo se fora e seus fiéis ameaçavam romper com qualquer semblante de paz nas negociações sociais pelos direitos dos negros.
O cantor James Brown deveria se apresentar naquela noite e o prefeito de Boston tinha uma dura escolha a fazer. Ele poderia soar um toque de recolher, cancelando o show, colocando uma força policial famosa por seus rompantes destemidos de puro racismo na rua e provavelmente atiçando um confronto campal que envolveria dezenas ou centenas de milhares de pessoas. Ou ele poderia deixar que o show fosse realizado, e ainda abrir uma transmissão do evento que incentivaria as pessoas a ficarem em casa, se arriscando a ainda assim acabar com uma revolta nas ruas e ser lembrado com um Nero, que tocou música enquanto a cidade queimava aos seus pés.
A segunda opção prevaleceu e James Brown ascendeu na consciência nacional americana como um apaziguador, relembrando as pessoas que King não seria a favor de tais manifestações de violência e que, em última instância, os revoltosos estavam prejudicando a si mesmos, indo presos, depredando suas próprias vizinhanças, destruindo suas próprias lojas e negócios, instigando mais medo e preconceito contra a sua raça. E o evento televisionado e reprisado realmente manteve as pessoas em suas casas e fora de conflitos com a polícia e o show lotou e foi tenso, mas pacífico, acarretando pouco prejuízo ao cantor e muito menos à cidade.

O problema é que o caráter manipulador da mídia quase nunca é usado de forma benéfica à população em geral. O caso de Boston em 68 é a exceção que prova a regra, talvez. Mas a regra produz situações como esta recente. O caso do prolongado seqüestro recente em Santo André apela a todos os sentidos básicos do ser humano médio. É uma tragédia shakespeariana com tudo dentro: amor, ódio, tragédia, inocentes pegos em meio ao caos, autoridades desarticuladas que agem como alívio humorístico, meras sátiras de si mesmas... E, claro, o espetáculo do palco montado e das luzes dos holofotes noticiosos cercando tudo, como se o mais natural fosse que estes estivessem ali.

A presença da mídia não é natural. No mundo acadêmico conhece-se bem o paradoxo do pesquisador que, ao observar determinado evento, mesmo que idônea e objetivamente, interfere no resultado. A própria presença dos meios de comunicação alterou, sim, o desfecho e o trâmite das negociações entre polícia e seqüestrador. Diabos, provavelmente alterou as comunicações internas dos próprios policiais presentes em seus níveis mais básicos, contaminando a operação.

Pior, talvez, seja que o espetáculo que se armou em torno desse fato (tocante e relevante quanto for para uma miríade de pessoas) tirou das manchetes outros fatos importantes que atingem um número muito maior de pessoas de forma consideravelmente mais direta. Eu não quero ser insensível, mas a MINHA vida muda muito pouco com a morte de Eloá. Mas a mim muito importa saber como vão as relações dentro dos escalões da corporação encarregada com a salvaguarda dos meus bens, meus direitos e minha integridade física. E que se exploda que o presidente acha tudo "lamentável" e que o governador do Estado de São Paulo acha que tudo é uma manipulação política eleitoreira. Isso tem que ser examinado e excrutinado sob a supervisão da sociedade. Papel fundamental da mídia. Se eu quiser ver algo que apele aos meus nobres sentimentos, eu alugo "Coração Valente" de novo.

E eu acho que, da próxima vez que eu tiver que ver um obituário representativo da decadência da sociedade brasileira no “Fantástico” ser seguido pelos gols da rodada, eu vou vomitar no meu teclado.

sábado, 26 de julho de 2008

Uma Canção das Trevas, sendo uma história de fantasmas do real.

Lições de vida e O Cavaleiro das Trevas se encontram na escuridão da insanidade.

Em 1843 o inglês Charles Dickens publicou sua obra “Uma Canção de Natal” (“A Christmas Carol, Being a Ghost Story of Christmas”) onde um homem aprende lições de vida através de visões fantasmagóricas na noite antes do Natal.

Hoje, 165 anos depois, não temos que esperar até o fim do ano para termos lições de vida provindas de dois eminentes personagens que nos visitam após suas mortes recentes. O advento do vídeo remove o elemento sobrenatural de suas aparições, mas não das mensagens que nos deixam.

Há dois dias, faleceu o professor universitário americano Randy Pausch, que conquistou milhões com sua palestra intitulada “última aula”, dada após seu diagnóstico de câncer pancreático em estágio terminal e depois transformada num livro Best-seller. Graças a ela, ele se transformou num exemplo de boa vida e dignidade frente à morte. Um homem que dedicou sua vida a realizar seus sonhos e a de outros, Pausch era professor de ciência da computação e um pioneiro em tecnologias de realidade virtual. Como todos os sonhos, os seus eram maiores do que a realidade concreta. O que o torna diferente da grande maioria é que ele trabalhou para criar realidades onde seus sonhos pudessem existir.

De certa forma podemos dizer o mesmo de Heath Ledger, o jovem e consagrado ator australiano que faleceu dia 22 de Janeiro deste ano. Na semana passada, estreou nos cinemas seu último desempenho completo, o filme Batman: O Cavaleiro das Trevas. No papel do vilão e arquiinimigo de Batman, o Coringa, Ledger é o elemento mais impressionante do filme, hipnótico, macabro e assustador num gênero cinematográfico marcado por efeitos especiais, simplificações voltadas ao público infantil e poucas atuações inspiradas. Como um cirurgião que faz uma delicada biopsia, Ledger extraiu a essência do vilão da arte seqüencial e a expôs, em toda a sua feiúra, de uma forma que até mesmo os mais brilhantes criadores e roteiristas originais lutaram para alcançar. Um psicopata, pseudo-humano, caótico, sinistro palhaço sem nome, sem passado, sem motivações concretas, alçando vôo de um inferno feito do mais abstrato significado de desordem e loucura. Um pesadelo para qualquer personagem ficcional que cruza seu caminho, para milhões de crianças que o leram em seus quase 70 anos de existência e um pesadelo para qualquer ator que pretende incorporá-lo, feito real, palpável, possível e, por isso, milhões de vezes mais impressionante. Graças a Ledger.

Pausch nos ensina que, na busca por concretizar nossos sonhos, por vezes, encontramos paredes, obstáculos aparentemente intransponíveis. Mas, dizia ele, elas não são insuperáveis. Simplesmente existem para garantir que apenas aqueles que realmente querem alcancem seus objetivos. Os que desistem frente às dificuldades somente não estão dispostos a sacrificar o suficiente. E é através destes sacrifícios que alcançamos e formamos nossa vida.

Nenhum de nós pode querer adivinhar o que Ledger sacrificou para concretizar o sonho de inúmeros fãs com sua atuação, mas existem aqueles que se propõem a imaginar. Reproduzo as palavras de um bom amigo, profundo conhecedor do personagem, que, depois de ver o filme, num êxtase de puro medo, me confidenciou sua impressão:

“Você pode imaginar o que deve ter sido para ele, por meses durante as filmagens, indo para um quarto de hotel escuro em algum lugar, se olhar no espelho e ver a cara dele (Coringa) no espelho, olhando de volta? Sorrindo aquele sorriso? Olhando naqueles olhos? Como ele conseguia dormir? Eu não conseguiria. Eu pegaria uma arma e estouraria meus miolos ali mesmo, só para que aquela COISA não saísse daquele quarto no dia seguinte. Por que aquele não era um ator representando. Aquele era o Coringa batendo num ator vestido de Batman com um cano de ferro. Ele era REAL. Esse é o problema. Ele ENTENDEU o Coringa. E entender o Coringa é entender a loucura, é ficar louco. E que EU tenha entendido me assusta demais!”

Ledger não conseguia dormir. Foi o abuso de pílulas para dormir que gerou a overdose que o matou. Sem nenhum desrespeito à memória de Ledger e não sou médico nem especialista, mas, para mim, este foi o primeiro caso de assassinato cometido por um personagem de ficção na história. Quando eu digo que Ledger materializou o Coringa no mundo real, isto é, em parte, o que eu quero dizer.

Mas o que eu quero realmente dizer e apontar aqui é que é incomensurável o talento de Ledger e uma perda irrevogável ao mundo das artes, assim como a perda de Pausch é para o mundo acadêmico. Pausch elevou sua ciência para que outros pudessem realizar seus sonhos através da realidade virtual e, no final, nos deixou com uma profunda lição de vida. Ledger elevou sua arte, suplantando até mesmo a atuação do mestre Anthony Hopkins em “O Silêncio dos Inocentes”. Ambos viveram suas vidas com abandono para alcançarem a excelência em suas respectivas áreas e serem sucessos indiscutíveis. Lições de vida sem dúvida. Uma inspiração para atingirmos nosso potencial.

Pausch tinha 47 anos, dez a menos que meu pai. Ledger tinha 28 anos, a minha idade. O que VOCÊ está fazendo com a SUA vida?

sábado, 19 de julho de 2008

Procura-se Boa Adaptação

O filme “O Procurado” (Wanted, 2008) é o exemplo perfeito do que Hollywood entende por “adaptação” de uma história em quadrinhos. É o que a indústria cinematográfica tem de melhor a oferecer. Efeitos especiais fantásticos, CG realística, boas atuações, um diretor inovador, belos cenários, figurinos e iluminação, tudo de primeira qualidade, o melhor que o dinheiro pode comprar. Incluindo os direitos para adaptar a história original ao cinema, comprados a preço de ouro do escritor Mark Millar. E aí, surge o roteiro.

Os responsáveis são os engenhosos Michael Brandt e Derek Haas, dois profissionais que nos presentearam com o inexpressivo “+ Velozes e + Furiosos”. E o produto que eles entregam aqui é simplesmente bestificante. Tudo vai bem enquanto eles se mantêm, até certo ponto, fiéis à estória original dos quadrinhos. Depois, bem, tirem suas próprias conclusões.

O começo de ambas as obras é semelhante. Wesley Gibson (James McAvoy) tem um emprego boçal, uma chefe chata que o aterroriza, uma namorada feiosa que transa com todo mundo, menos com ele, e um “melhor amigo” que abusa dele, inclusive dormindo com sua namorada e disfarçando o caso muito mal. Wesley é órfão de mãe e nunca conheceu seu pai, nunca entrou em uma briga, é hipocondríaco e dolorosamente consciente de quão patética é a sua existência. A melhor frase dos quadrinhos que os roteiristas aproveitaram é de Wesley, quando este diz “Meu pai nos abandonou quando eu tinha 18 semanas de idade. Será que ele olhou para os meus olhos de bebê e percebeu que era pai do puto mais insignificante do século?”.

Sem que ele saiba, seu pai sofre um atentado, consegue matar os mercenários enviados contra ele usando estranhos super-poderes, mas acaba morto por um tiro impossível disparado por um atirador miraculoso. Na seqüência, Wesley encontra a misteriosa Fox (Angelina Jolie) que o seqüestra depois de certa violência e uma perseguição de carro pelas ruas da cidade. O carro apanha um bocado, mas ainda tem condições de passeio. As rodas caem do filme, no entanto, e este começa girar quadrado.

Nos quadrinhos, Wesley recebe algumas notícias chocantes de Fox. Seu pai morreu, ele era um dos maiores super vilões do mundo, Wesley pode herdar tudo que era dele, mas antes tem que passar por um treinamento com seus antigos associados, a Fraternidade de super vilões, que controla o mundo nos bastidores e pode fazer basicamente o que quiser. Uma coisa ele já herdara, os poderes de seu pai de ser absolutamente preciso e mortal com qualquer arma do mundo. Agora ele tem que herdar o estilo de vida do pai. Ou seja, se tornar um vilão sanguinário, desalmado, mas dono do próprio destino.

No filme, o pai de Wesley fazia parte da Fraternidade, um grupo de assassinos com características em comum. Eles produzem mais adrenalina que qualquer outra pessoa e, assim, são mais fortes, mais resistentes e mais rápidos. E, além disso, podem fazer balas desviarem em pleno ar. Como nos quadrinhos, Wesley passa por um intenso treinamento com mais do que uma pitada de tortura, com sessões diárias de espancamentos. Claro que o filme não vai tão longe quanto os quadrinhos (onde ele é forçado a matar dezenas de animais e treina tiros em pessoas vivas), mas dá uma boa idéia da situação em que Gibson se encontra.

E aqui, o cinéfilo desavisado dirá “É fantástico, mas é menos absurdo que os quadrinhos”. Francamente, não, não é. Os assassinos do filme escolhem suas vítimas pelo processo mais bizarro já visto na telona. Aparentemente, a Fraternidade é a herdeira de uma religião milenar que, como os gregos, romanos e nórdicos, dentre outros, acreditavam que a vida das pessoas era um fio numa tapeçaria. Quando o fio quebrava, era o fim da vida daquela pessoa. Mas o filme leva isso ainda mais longe. As quebras nos fios são códigos binários, que dão aos assassinos as letras dos nomes das pessoas a serem mortas uma a uma. E quando um nome surge, é preciso matá-lo para, em teoria, salvar milhares de outros. Eu prefiro acreditar em super vilões. E a coisa não melhora muito depois disso.

Muitos filmes baseados em quadrinhos têm uma preocupação menos que óbvia em manterem-se próximos de seu material original. Mas O Procurado leva o prêmio de mais distante. Sinceramente, vá se você quiser ver o bom McAvoy tentando fazer um nome para si, Jolie fazendo cara de sexy menina má, Morgan Freeman trabalhando por um trocado e alguns efeitos especiais interessantes. Mas se você estiver buscando conteúdo, fuja deste filme estonteantemente burro. A obra de Millar tem ares de revolucionária e aborda alguns lugares comuns dos quadrinhos de forma nova e engenhosa. O filme é como aquela modelo linda que, numa conversa de cinco minutos, confunde Andy Kaufman com Andy Panda, Jairzinho da Seleção de 70 com Jairzinho do Balão Mágico e Cacciola com Cicciolina.

O que mais me irrita é que este filme tem toda a cara de algo que os roteiristas já estavam desenvolvendo e aí, com a compra dos direitos, adaptaram para poderem usar os nomes e “urubusarem” as partes que lhes convinham. A melhor seqüência original do filme, com certeza, é algo que poderia ser visto tranquilamente em Velozes e Furiosos. É uma enganação. Venderam-me O Procurado como quem vende um videocassete e, quando eu cheguei em casa e abri a caixa do aparelho, tinha uma pedra dentro.