Lições de vida e O Cavaleiro das Trevas se encontram na escuridão da insanidade.
Em 1843 o inglês Charles Dickens publicou sua obra “Uma Canção de Natal” (“A Christmas Carol, Being a Ghost Story of Christmas”) onde um homem aprende lições de vida através de visões fantasmagóricas na noite antes do Natal.
Hoje, 165 anos depois, não temos que esperar até o fim do ano para termos lições de vida provindas de dois eminentes personagens que nos visitam após suas mortes recentes. O advento do vídeo remove o elemento sobrenatural de suas aparições, mas não das mensagens que nos deixam.
Há dois dias, faleceu o professor universitário americano Randy Pausch, que conquistou milhões com sua palestra intitulada “última aula”, dada após seu diagnóstico de câncer pancreático em estágio terminal e depois transformada num livro Best-seller. Graças a ela, ele se transformou num exemplo de boa vida e dignidade frente à morte. Um homem que dedicou sua vida a realizar seus sonhos e a de outros, Pausch era professor de ciência da computação e um pioneiro em tecnologias de realidade virtual. Como todos os sonhos, os seus eram maiores do que a realidade concreta. O que o torna diferente da grande maioria é que ele trabalhou para criar realidades onde seus sonhos pudessem existir.
De certa forma podemos dizer o mesmo de Heath Ledger, o jovem e consagrado ator australiano que faleceu dia 22 de Janeiro deste ano. Na semana passada, estreou nos cinemas seu último desempenho completo, o filme Batman: O Cavaleiro das Trevas. No papel do vilão e arquiinimigo de Batman, o Coringa, Ledger é o elemento mais impressionante do filme, hipnótico, macabro e assustador num gênero cinematográfico marcado por efeitos especiais, simplificações voltadas ao público infantil e poucas atuações inspiradas. Como um cirurgião que faz uma delicada biopsia, Ledger extraiu a essência do vilão da arte seqüencial e a expôs, em toda a sua feiúra, de uma forma que até mesmo os mais brilhantes criadores e roteiristas originais lutaram para alcançar. Um psicopata, pseudo-humano, caótico, sinistro palhaço sem nome, sem passado, sem motivações concretas, alçando vôo de um inferno feito do mais abstrato significado de desordem e loucura. Um pesadelo para qualquer personagem ficcional que cruza seu caminho, para milhões de crianças que o leram em seus quase 70 anos de existência e um pesadelo para qualquer ator que pretende incorporá-lo, feito real, palpável, possível e, por isso, milhões de vezes mais impressionante. Graças a Ledger.
Pausch nos ensina que, na busca por concretizar nossos sonhos, por vezes, encontramos paredes, obstáculos aparentemente intransponíveis. Mas, dizia ele, elas não são insuperáveis. Simplesmente existem para garantir que apenas aqueles que realmente querem alcancem seus objetivos. Os que desistem frente às dificuldades somente não estão dispostos a sacrificar o suficiente. E é através destes sacrifícios que alcançamos e formamos nossa vida.
Nenhum de nós pode querer adivinhar o que Ledger sacrificou para concretizar o sonho de inúmeros fãs com sua atuação, mas existem aqueles que se propõem a imaginar. Reproduzo as palavras de um bom amigo, profundo conhecedor do personagem, que, depois de ver o filme, num êxtase de puro medo, me confidenciou sua impressão:
“Você pode imaginar o que deve ter sido para ele, por meses durante as filmagens, indo para um quarto de hotel escuro em algum lugar, se olhar no espelho e ver a cara dele (Coringa) no espelho, olhando de volta? Sorrindo aquele sorriso? Olhando naqueles olhos? Como ele conseguia dormir? Eu não conseguiria. Eu pegaria uma arma e estouraria meus miolos ali mesmo, só para que aquela COISA não saísse daquele quarto no dia seguinte. Por que aquele não era um ator representando. Aquele era o Coringa batendo num ator vestido de Batman com um cano de ferro. Ele era REAL. Esse é o problema. Ele ENTENDEU o Coringa. E entender o Coringa é entender a loucura, é ficar louco. E que EU tenha entendido me assusta demais!”
Ledger não conseguia dormir. Foi o abuso de pílulas para dormir que gerou a overdose que o matou. Sem nenhum desrespeito à memória de Ledger e não sou médico nem especialista, mas, para mim, este foi o primeiro caso de assassinato cometido por um personagem de ficção na história. Quando eu digo que Ledger materializou o Coringa no mundo real, isto é, em parte, o que eu quero dizer.
Mas o que eu quero realmente dizer e apontar aqui é que é incomensurável o talento de Ledger e uma perda irrevogável ao mundo das artes, assim como a perda de Pausch é para o mundo acadêmico. Pausch elevou sua ciência para que outros pudessem realizar seus sonhos através da realidade virtual e, no final, nos deixou com uma profunda lição de vida. Ledger elevou sua arte, suplantando até mesmo a atuação do mestre Anthony Hopkins em “O Silêncio dos Inocentes”. Ambos viveram suas vidas com abandono para alcançarem a excelência em suas respectivas áreas e serem sucessos indiscutíveis. Lições de vida sem dúvida. Uma inspiração para atingirmos nosso potencial.
Pausch tinha 47 anos, dez a menos que meu pai. Ledger tinha 28 anos, a minha idade. O que VOCÊ está fazendo com a SUA vida?
sábado, 26 de julho de 2008
sábado, 19 de julho de 2008
Procura-se Boa Adaptação
O filme “O Procurado” (Wanted, 2008) é o exemplo perfeito do que Hollywood entende por “adaptação” de uma história em quadrinhos. É o que a indústria cinematográfica tem de melhor a oferecer. Efeitos especiais fantásticos, CG realística, boas atuações, um diretor inovador, belos cenários, figurinos e iluminação, tudo de primeira qualidade, o melhor que o dinheiro pode comprar. Incluindo os direitos para adaptar a história original ao cinema, comprados a preço de ouro do escritor Mark Millar. E aí, surge o roteiro.
Os responsáveis são os engenhosos Michael Brandt e Derek Haas, dois profissionais que nos presentearam com o inexpressivo “+ Velozes e + Furiosos”. E o produto que eles entregam aqui é simplesmente bestificante. Tudo vai bem enquanto eles se mantêm, até certo ponto, fiéis à estória original dos quadrinhos. Depois, bem, tirem suas próprias conclusões.
O começo de ambas as obras é semelhante. Wesley Gibson (James McAvoy) tem um emprego boçal, uma chefe chata que o aterroriza, uma namorada feiosa que transa com todo mundo, menos com ele, e um “melhor amigo” que abusa dele, inclusive dormindo com sua namorada e disfarçando o caso muito mal. Wesley é órfão de mãe e nunca conheceu seu pai, nunca entrou em uma briga, é hipocondríaco e dolorosamente consciente de quão patética é a sua existência. A melhor frase dos quadrinhos que os roteiristas aproveitaram é de Wesley, quando este diz “Meu pai nos abandonou quando eu tinha 18 semanas de idade. Será que ele olhou para os meus olhos de bebê e percebeu que era pai do puto mais insignificante do século?”.
Sem que ele saiba, seu pai sofre um atentado, consegue matar os mercenários enviados contra ele usando estranhos super-poderes, mas acaba morto por um tiro impossível disparado por um atirador miraculoso. Na seqüência, Wesley encontra a misteriosa Fox (Angelina Jolie) que o seqüestra depois de certa violência e uma perseguição de carro pelas ruas da cidade. O carro apanha um bocado, mas ainda tem condições de passeio. As rodas caem do filme, no entanto, e este começa girar quadrado.
Nos quadrinhos, Wesley recebe algumas notícias chocantes de Fox. Seu pai morreu, ele era um dos maiores super vilões do mundo, Wesley pode herdar tudo que era dele, mas antes tem que passar por um treinamento com seus antigos associados, a Fraternidade de super vilões, que controla o mundo nos bastidores e pode fazer basicamente o que quiser. Uma coisa ele já herdara, os poderes de seu pai de ser absolutamente preciso e mortal com qualquer arma do mundo. Agora ele tem que herdar o estilo de vida do pai. Ou seja, se tornar um vilão sanguinário, desalmado, mas dono do próprio destino.
No filme, o pai de Wesley fazia parte da Fraternidade, um grupo de assassinos com características em comum. Eles produzem mais adrenalina que qualquer outra pessoa e, assim, são mais fortes, mais resistentes e mais rápidos. E, além disso, podem fazer balas desviarem em pleno ar. Como nos quadrinhos, Wesley passa por um intenso treinamento com mais do que uma pitada de tortura, com sessões diárias de espancamentos. Claro que o filme não vai tão longe quanto os quadrinhos (onde ele é forçado a matar dezenas de animais e treina tiros em pessoas vivas), mas dá uma boa idéia da situação em que Gibson se encontra.
E aqui, o cinéfilo desavisado dirá “É fantástico, mas é menos absurdo que os quadrinhos”. Francamente, não, não é. Os assassinos do filme escolhem suas vítimas pelo processo mais bizarro já visto na telona. Aparentemente, a Fraternidade é a herdeira de uma religião milenar que, como os gregos, romanos e nórdicos, dentre outros, acreditavam que a vida das pessoas era um fio numa tapeçaria. Quando o fio quebrava, era o fim da vida daquela pessoa. Mas o filme leva isso ainda mais longe. As quebras nos fios são códigos binários, que dão aos assassinos as letras dos nomes das pessoas a serem mortas uma a uma. E quando um nome surge, é preciso matá-lo para, em teoria, salvar milhares de outros. Eu prefiro acreditar em super vilões. E a coisa não melhora muito depois disso.
Muitos filmes baseados em quadrinhos têm uma preocupação menos que óbvia em manterem-se próximos de seu material original. Mas O Procurado leva o prêmio de mais distante. Sinceramente, vá se você quiser ver o bom McAvoy tentando fazer um nome para si, Jolie fazendo cara de sexy menina má, Morgan Freeman trabalhando por um trocado e alguns efeitos especiais interessantes. Mas se você estiver buscando conteúdo, fuja deste filme estonteantemente burro. A obra de Millar tem ares de revolucionária e aborda alguns lugares comuns dos quadrinhos de forma nova e engenhosa. O filme é como aquela modelo linda que, numa conversa de cinco minutos, confunde Andy Kaufman com Andy Panda, Jairzinho da Seleção de 70 com Jairzinho do Balão Mágico e Cacciola com Cicciolina.
O que mais me irrita é que este filme tem toda a cara de algo que os roteiristas já estavam desenvolvendo e aí, com a compra dos direitos, adaptaram para poderem usar os nomes e “urubusarem” as partes que lhes convinham. A melhor seqüência original do filme, com certeza, é algo que poderia ser visto tranquilamente em Velozes e Furiosos. É uma enganação. Venderam-me O Procurado como quem vende um videocassete e, quando eu cheguei em casa e abri a caixa do aparelho, tinha uma pedra dentro.
Os responsáveis são os engenhosos Michael Brandt e Derek Haas, dois profissionais que nos presentearam com o inexpressivo “+ Velozes e + Furiosos”. E o produto que eles entregam aqui é simplesmente bestificante. Tudo vai bem enquanto eles se mantêm, até certo ponto, fiéis à estória original dos quadrinhos. Depois, bem, tirem suas próprias conclusões.
O começo de ambas as obras é semelhante. Wesley Gibson (James McAvoy) tem um emprego boçal, uma chefe chata que o aterroriza, uma namorada feiosa que transa com todo mundo, menos com ele, e um “melhor amigo” que abusa dele, inclusive dormindo com sua namorada e disfarçando o caso muito mal. Wesley é órfão de mãe e nunca conheceu seu pai, nunca entrou em uma briga, é hipocondríaco e dolorosamente consciente de quão patética é a sua existência. A melhor frase dos quadrinhos que os roteiristas aproveitaram é de Wesley, quando este diz “Meu pai nos abandonou quando eu tinha 18 semanas de idade. Será que ele olhou para os meus olhos de bebê e percebeu que era pai do puto mais insignificante do século?”.
Sem que ele saiba, seu pai sofre um atentado, consegue matar os mercenários enviados contra ele usando estranhos super-poderes, mas acaba morto por um tiro impossível disparado por um atirador miraculoso. Na seqüência, Wesley encontra a misteriosa Fox (Angelina Jolie) que o seqüestra depois de certa violência e uma perseguição de carro pelas ruas da cidade. O carro apanha um bocado, mas ainda tem condições de passeio. As rodas caem do filme, no entanto, e este começa girar quadrado.
Nos quadrinhos, Wesley recebe algumas notícias chocantes de Fox. Seu pai morreu, ele era um dos maiores super vilões do mundo, Wesley pode herdar tudo que era dele, mas antes tem que passar por um treinamento com seus antigos associados, a Fraternidade de super vilões, que controla o mundo nos bastidores e pode fazer basicamente o que quiser. Uma coisa ele já herdara, os poderes de seu pai de ser absolutamente preciso e mortal com qualquer arma do mundo. Agora ele tem que herdar o estilo de vida do pai. Ou seja, se tornar um vilão sanguinário, desalmado, mas dono do próprio destino.
No filme, o pai de Wesley fazia parte da Fraternidade, um grupo de assassinos com características em comum. Eles produzem mais adrenalina que qualquer outra pessoa e, assim, são mais fortes, mais resistentes e mais rápidos. E, além disso, podem fazer balas desviarem em pleno ar. Como nos quadrinhos, Wesley passa por um intenso treinamento com mais do que uma pitada de tortura, com sessões diárias de espancamentos. Claro que o filme não vai tão longe quanto os quadrinhos (onde ele é forçado a matar dezenas de animais e treina tiros em pessoas vivas), mas dá uma boa idéia da situação em que Gibson se encontra.
E aqui, o cinéfilo desavisado dirá “É fantástico, mas é menos absurdo que os quadrinhos”. Francamente, não, não é. Os assassinos do filme escolhem suas vítimas pelo processo mais bizarro já visto na telona. Aparentemente, a Fraternidade é a herdeira de uma religião milenar que, como os gregos, romanos e nórdicos, dentre outros, acreditavam que a vida das pessoas era um fio numa tapeçaria. Quando o fio quebrava, era o fim da vida daquela pessoa. Mas o filme leva isso ainda mais longe. As quebras nos fios são códigos binários, que dão aos assassinos as letras dos nomes das pessoas a serem mortas uma a uma. E quando um nome surge, é preciso matá-lo para, em teoria, salvar milhares de outros. Eu prefiro acreditar em super vilões. E a coisa não melhora muito depois disso.
Muitos filmes baseados em quadrinhos têm uma preocupação menos que óbvia em manterem-se próximos de seu material original. Mas O Procurado leva o prêmio de mais distante. Sinceramente, vá se você quiser ver o bom McAvoy tentando fazer um nome para si, Jolie fazendo cara de sexy menina má, Morgan Freeman trabalhando por um trocado e alguns efeitos especiais interessantes. Mas se você estiver buscando conteúdo, fuja deste filme estonteantemente burro. A obra de Millar tem ares de revolucionária e aborda alguns lugares comuns dos quadrinhos de forma nova e engenhosa. O filme é como aquela modelo linda que, numa conversa de cinco minutos, confunde Andy Kaufman com Andy Panda, Jairzinho da Seleção de 70 com Jairzinho do Balão Mágico e Cacciola com Cicciolina.
O que mais me irrita é que este filme tem toda a cara de algo que os roteiristas já estavam desenvolvendo e aí, com a compra dos direitos, adaptaram para poderem usar os nomes e “urubusarem” as partes que lhes convinham. A melhor seqüência original do filme, com certeza, é algo que poderia ser visto tranquilamente em Velozes e Furiosos. É uma enganação. Venderam-me O Procurado como quem vende um videocassete e, quando eu cheguei em casa e abri a caixa do aparelho, tinha uma pedra dentro.
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