sábado, 19 de julho de 2008

Procura-se Boa Adaptação

O filme “O Procurado” (Wanted, 2008) é o exemplo perfeito do que Hollywood entende por “adaptação” de uma história em quadrinhos. É o que a indústria cinematográfica tem de melhor a oferecer. Efeitos especiais fantásticos, CG realística, boas atuações, um diretor inovador, belos cenários, figurinos e iluminação, tudo de primeira qualidade, o melhor que o dinheiro pode comprar. Incluindo os direitos para adaptar a história original ao cinema, comprados a preço de ouro do escritor Mark Millar. E aí, surge o roteiro.

Os responsáveis são os engenhosos Michael Brandt e Derek Haas, dois profissionais que nos presentearam com o inexpressivo “+ Velozes e + Furiosos”. E o produto que eles entregam aqui é simplesmente bestificante. Tudo vai bem enquanto eles se mantêm, até certo ponto, fiéis à estória original dos quadrinhos. Depois, bem, tirem suas próprias conclusões.

O começo de ambas as obras é semelhante. Wesley Gibson (James McAvoy) tem um emprego boçal, uma chefe chata que o aterroriza, uma namorada feiosa que transa com todo mundo, menos com ele, e um “melhor amigo” que abusa dele, inclusive dormindo com sua namorada e disfarçando o caso muito mal. Wesley é órfão de mãe e nunca conheceu seu pai, nunca entrou em uma briga, é hipocondríaco e dolorosamente consciente de quão patética é a sua existência. A melhor frase dos quadrinhos que os roteiristas aproveitaram é de Wesley, quando este diz “Meu pai nos abandonou quando eu tinha 18 semanas de idade. Será que ele olhou para os meus olhos de bebê e percebeu que era pai do puto mais insignificante do século?”.

Sem que ele saiba, seu pai sofre um atentado, consegue matar os mercenários enviados contra ele usando estranhos super-poderes, mas acaba morto por um tiro impossível disparado por um atirador miraculoso. Na seqüência, Wesley encontra a misteriosa Fox (Angelina Jolie) que o seqüestra depois de certa violência e uma perseguição de carro pelas ruas da cidade. O carro apanha um bocado, mas ainda tem condições de passeio. As rodas caem do filme, no entanto, e este começa girar quadrado.

Nos quadrinhos, Wesley recebe algumas notícias chocantes de Fox. Seu pai morreu, ele era um dos maiores super vilões do mundo, Wesley pode herdar tudo que era dele, mas antes tem que passar por um treinamento com seus antigos associados, a Fraternidade de super vilões, que controla o mundo nos bastidores e pode fazer basicamente o que quiser. Uma coisa ele já herdara, os poderes de seu pai de ser absolutamente preciso e mortal com qualquer arma do mundo. Agora ele tem que herdar o estilo de vida do pai. Ou seja, se tornar um vilão sanguinário, desalmado, mas dono do próprio destino.

No filme, o pai de Wesley fazia parte da Fraternidade, um grupo de assassinos com características em comum. Eles produzem mais adrenalina que qualquer outra pessoa e, assim, são mais fortes, mais resistentes e mais rápidos. E, além disso, podem fazer balas desviarem em pleno ar. Como nos quadrinhos, Wesley passa por um intenso treinamento com mais do que uma pitada de tortura, com sessões diárias de espancamentos. Claro que o filme não vai tão longe quanto os quadrinhos (onde ele é forçado a matar dezenas de animais e treina tiros em pessoas vivas), mas dá uma boa idéia da situação em que Gibson se encontra.

E aqui, o cinéfilo desavisado dirá “É fantástico, mas é menos absurdo que os quadrinhos”. Francamente, não, não é. Os assassinos do filme escolhem suas vítimas pelo processo mais bizarro já visto na telona. Aparentemente, a Fraternidade é a herdeira de uma religião milenar que, como os gregos, romanos e nórdicos, dentre outros, acreditavam que a vida das pessoas era um fio numa tapeçaria. Quando o fio quebrava, era o fim da vida daquela pessoa. Mas o filme leva isso ainda mais longe. As quebras nos fios são códigos binários, que dão aos assassinos as letras dos nomes das pessoas a serem mortas uma a uma. E quando um nome surge, é preciso matá-lo para, em teoria, salvar milhares de outros. Eu prefiro acreditar em super vilões. E a coisa não melhora muito depois disso.

Muitos filmes baseados em quadrinhos têm uma preocupação menos que óbvia em manterem-se próximos de seu material original. Mas O Procurado leva o prêmio de mais distante. Sinceramente, vá se você quiser ver o bom McAvoy tentando fazer um nome para si, Jolie fazendo cara de sexy menina má, Morgan Freeman trabalhando por um trocado e alguns efeitos especiais interessantes. Mas se você estiver buscando conteúdo, fuja deste filme estonteantemente burro. A obra de Millar tem ares de revolucionária e aborda alguns lugares comuns dos quadrinhos de forma nova e engenhosa. O filme é como aquela modelo linda que, numa conversa de cinco minutos, confunde Andy Kaufman com Andy Panda, Jairzinho da Seleção de 70 com Jairzinho do Balão Mágico e Cacciola com Cicciolina.

O que mais me irrita é que este filme tem toda a cara de algo que os roteiristas já estavam desenvolvendo e aí, com a compra dos direitos, adaptaram para poderem usar os nomes e “urubusarem” as partes que lhes convinham. A melhor seqüência original do filme, com certeza, é algo que poderia ser visto tranquilamente em Velozes e Furiosos. É uma enganação. Venderam-me O Procurado como quem vende um videocassete e, quando eu cheguei em casa e abri a caixa do aparelho, tinha uma pedra dentro.

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